E onde está o papel transgressor da arte?

Hoje vivemos, decididamente, num tempo onde quase todo mundo pode fazer de tudo. Basta ter um programa específico que qualquer um pode gravar um álbum em casa, há cursos e mais cursos de escultura, pintura, interpretação e outras milhares de atividades relacionadas às artes por todos os lados. Na escrita então, nem se fala: contas gratuitas de blogs surgem a todo instante e textos dos mais variados assuntos são jogados na internet. Mas sabe o que me intriga? O aumento do acesso parece não ter aumentado (pelo menos não na mesma proporção) a quantidade de arte de qualidade.

Acho importante para continuar que eu conceitue o que será considerado arte nesse texto. Eu tenho uma visão muito subjetiva sobre o assunto, mas aqui tentarei tornar isso mais palpável chamando de arte somente àquilo que causa alguma ruptura, seja estética, ideológica ou o que mais existir. Nesse conceito excluo muitas coisas que gosto, mas acho que é necessário delimitar algo para um texto tão curto.

Outro dia o músico Lobão afirmou que vivemos num momento triste de cópia. Odeio concordar com ele, mas é o que vejo espalhado por aí. A moda agora é revisitar, enaltecer o passado e muito pouca coisa nova acontece. E o pior: essa revisitação é puramente estética e diretamente ligada ao processo de consumismo. Os questionamentos, os conflitos são deixados para trás e, como diria uma antiga propaganda do Shopping Mueller de Joinville, estamos cheios de neo-hippies consumistas.

E onde está o papel transgressor da arte? Ligar o rádio eu não consigo mais, me dá muita raiva, na televisão a mesma situação e, na internet, onde deveria existir uma liberdade maior, também encontramos o mesmo cenário. Não estou dizendo que não vejo nada bom, mas há muito não vejo nada novo, nada diferente.

Bandas de rock’n’roll estão sempre entre 3 e 5 integrantes, tocando baixo, guitarra, bateria e teclado (apesar de ser Cult usar algum instrumento diferente em alguma música, se for cítara está perfeito). No cinema, houve nacionalmente Cidade de Deus que visualmente quebrou alguns conceitos e propôs uma temática diferenciada, mas e depois? Tropa de Elite, A Última Parada 174 e outros chamados de “favela-movie” trouxeram o que de volta? Nada... apenas se apoiaram no sucesso de seu predecessor.

Ando muito afastado da literatura e entendo muito pouco de pintura e escultura, mas na música e no cinema é esse o cenário que vejo. Não é uma regra, mas no geral é isso que está acontecendo quando, teoricamente, a tecnologia está à mão de todos que querem criar.

Nesse cenário me vejo obrigado muitas vezes a ignorar o novo e partir pra observar só o antigo, o original.

2 comentários:

Filipe Ferrari disse...

Cara, hoje realmente há uma "banalização" da arte. Não sei bem como explicar, mas qualquer Zé Ruela hoje pode se dizer artista, e sempre vai ter outro mais zé Ruela que gosta do que o outro fez, haha... O melhor exemplo disso são os blogs...

o Cheff disse...

Cara, sei lá, penso que filmes que fazem alguma diferença são sempre raros.
E aí sim, se tudo fosse bom seria uma banalização. São raros, por isso são bons.
Mas, penso que tem também uma crise na maneira de vermos o tempo, de vivermos o tempo.
Um filme tinha uma certa lógica antes:
- Um roteiro deveria ter noventa páginas. Uma página por minuto.
- Aos vinte, vinte e cinco minutos deveria haver o "tombo". Ou seja a grande virada.
- Depois disso, cinquenta minutos da ação do "herói" (aqui não herói, de herói, e sim do personagem, que não deixa de ser um herói, aj e nem ação de dar tiros)
- Uma nova culminância, e cinco ou dez minutos de fechamento.

Hoje muitos filmes devem começar com um movimento enorme, porque ninguém mais tem tempo para esperar vinte minutos.
Mas isso vai dar muito texto.
Quem sabe quando vc vier aqui tomamos umas e te conto sobre a "construção do herói". Um maluco aí descobriu um linha em todos os filmes e histórias desde o tempo das cavernas. Lançou um livro em 1940 que ainda é usado pelos roteiristas. É mole?

Um abraçço véio, saudades.

ps1: gostei do novo design.