Ontem a noite na Univille

Ontem participei da aula trote do curso de História da Univille. Foi bom, foi divertido. Eu carregava uma responsabilidade tremenda, já que todos os anos em que assisti esse evento foi muito bom, e eu não poderia deixar a peteca cair.

Quando entrei no anfiteatro 2, já tão conhecido de tantos anos, minhas pernas não tinham força suficientes para me manter em pé e meu coração parecia uma bateria de banda hardcore. Quando o comarada Filipe me chamou para 'compor a mesa', achei que não conseguiria levantar. Levantei e deu tudo certo.

Agora, a parte triste disso tudo é que a introdução da 'palestra' não foi falsa. Quando falei do desanimo, na falta de apoio e na dificuldade de realizar sonhos que exijam um suporte financeiro sendo professor, eu estava falando sério, não precisei fingir nem um pouco.

Importante deixar bem claro que todo o resto, sobre acreditar que discutir a diversidade não é papel do educador é mentira, mas o desânimo não. Ando muito pessimista quanto a essa profissão.

Uma tarde na Gerência

Confiro no meu telefone o horário: 10:45h. Desço as escadas e pego o caminho que me levará até a gerência regional de educação. Não tenho muita esperança de voltar logo para casa, sei que vou atrás das aulas que ninguém mais quis. Às 11:15h estou dentro do prédio, sentado e aproveitando do ar condicionado.

- Quem é do cadastro de reserva tem que esperar a senha que será distribuída às 13h.

- A ordem para ser atendido será a senha?

- Sim.

Sentado até faço algumas amizades. Trocamos algumas experiências de desventuras, e assim já é quase uma hora da tarde. Quando cheguei havia apenas quatro pessoas, como esse número já havia aumentado consideravelmente, resolvemos nos organizar para a entrega da senha.

Um pouco antes das 13h a senha chega e, junto dela, alguma informação.

- Quem vai esperar a chamada da prova espera aqui em baixo. Reserva Técnica pega a senha e sobe para esperar no auditório pequeno.

Algumas pessoas tentam burlar a nossa organização para a senha, mas consigo pegar o meu número sem grande esforço: 36! Imaginei que a sorte estava ao meu lado, pelo menos um pouco. Subo as escadas à tempo de escutar:

- Todos mundo tem que esperar lá embaixo – berra a voz irritada - haverá uma comunicação para vocês.

Espera.

Ainda há fila para a senha. Nova ordem para subirmos, a senha seria entregue no auditório grande. Na nova entrega não foi respeitada ordem de chegada e, nesse momento, novamente acreditei na sorte do meu lado afinal eu já tinha meu número garantido.

A senha havia começado no número 31, foi ao 99 e, na seqüencia, voltou ao número 01. Havia pelo menos mais umas três pessoas com a mesma senha que a minha. Cadê a sorte?

- Como vamos organizar esse problema da senha? Tem muita gente com senha igual!!!

- Todos devem ter bom senso!

Agora já são 14h.

Espera e mais espera. Por volta das 15h a senha já está na terceira dezena e muitas pessoas que já tem senha começam a pegar outro número, menor que o primeiro, com um objetivo que para mim não é muito claro.

Mais espera.

Às 18h chega o aviso que a distribuição “lá embaixo” terminou, e começará agora aqui “em cima”! Sentimento de alívio, um pequeno paliativo para o forte calor que fazia dentro da sala lotada.

Espera mais um pouco e a noite chega. Resolvo, junto a uma colega, ir comer algo no Mueller já que minha última refeição havia sido um macarrão instantâneo e dois ovos as 10:30h. Fomos, comemos sem pressa e voltamos. Nada havia mudado.

A essa altura do campeonato chegavam noticias desencotradas.

- Ninguém tá respeitando a senha dentro das salas!

- A senha está sendo utilizada.

- Vamos fazer a seleção por disciplina.

- Não joguem as senhas fora, elas serão utilizadas na chamada.

Pelo menos uma hora depois de terminada a distribuição de aulas “lá embaixo” vem a notícia que não havia mais aulas de Educação Física. Havia uns dez profissionais esperando: frustração, gritos e ameaças.

Às 20:30h eu não tinha mais forças. Não havia aulas de história, mas ainda restava sociologia e filosofia, ter que brigar para provar que tinha umas das primeiras senhas, receber como não-habilitado, dar aulas que eu não deveria dar, vontade de tomar banho, cansaço, fome. Decidi que não iria além das 21h.

- Depois de língua portuguesa não vamos chamar educação especial, história, geografia, sociologia e filosofia. Nessa ordem.

Até agora, cada uma das disciplinas que haviam sido chamadas tinham demorado pelo menos uma hora para serem atendidas. Priscila chegou, resolvi ir para sua casa. Corremos até o estacionamento e, segundos depois de entrarmos no carro cai a forte chuva de ontem.

Não fiz a prova para ACT, não esperava ter pãozinho com patê e caviar para matarmos a fome, mas um pouco mais de organização e respeito com o ser humano era preciso e possível de ocorrer, por que não? Fica a experiência.

Como assim?

No ano passado o Congresso Nacional aprovou o aumento do salário dos nosso queridos políticos, com apoio do governo federal é importante dizer.
Agora, no início do ano anunciou um corte de gastos e, para fazer essa economia, vai cancelar todos os concursos públicos federais esse ano.
A possibilidade de emprego para muitos brasileiros é muito menos importante do que um aumento no já elevado salário dos politicos nacionais. Eu não entendo essa lógica em um governo dito popular.

Utopia

Já aconteceu muita coisa desde a última vez que escrevi aqui. Quando fiz escrevi que voltava ao Paraná: eu já fui, voltei, fui e voltei outra vez. Agora não tenho mais planos de viver em terras vermelhas tão cedo, mas planos são coisas muito voláteis.

Ainda continuo perseguindo o desejo de passar em algum concurso público, e cada vez consigo estudar mais para isso, mas ainda não está sendo suficiente. Ontem camarada Fifi me perguntou porque eu não faço concurso para professor, dei-lhe minha resposta, mas talvez só escrevendo para traduzir melhor meu sentimento.

Em um ano e três meses como docente, já experimente diversas sensações - do ódio à esperança, mas últimamente o único que se abatia sobre mim é o desanimo. Não me entendam mal, eu gosto de dar aulas e tenho a impressão que é a única coisa com real qualidade que consigo fazer, mas a vida de um professor é muito triste, sempre pensando em como e quando poderá ser melhor. Quero dar aulas durante muitos anos na minha vida, mas definitivamente não quero ter que sobreviver disso.

Eu gostaria de deixar a docência no lado prazeiroso da minha vida, não do lado laboral. Entrar numa sala e construir uma aula é divertido, sobretudo no Ensino Médio, mas quando isso passa a ser o meio obrigatório para garantir meu aluguel, minha alimentação e lazer, automaticamente o sentimento muda dentro da minha cabeça, e passo a ver desânimo por toda a lousa.

Tenho mais uma possibilidade esse ano para fazer essa mudança. Tenho alguns meses livres em Joinville para estudar, montar um mestrado, passar em um concurso, fazer alguma coisa para poder materializar essa vontade. Vamos ver.

E o sonho acabou!

Não sei se já comentei isso aqui, mas eu tenho vergonha de não atualizar o blog. Tanta vergonha que não consigo nem entrar nele pra ver as atualizações de amigos, muito menos de comentar em seus respectivos blogs. Quando não escrevo, sinto realmente estar em falta com algo. E assim, a falta de escrever gera mais distância da página, e essa distância acaba por se perpetuar.

Duas semanas atrás passei, talvez por uma das primeiras vezes, por um grande amargor da vida. Depois de meses atrás de emprego, surgiram aulas em Joinville – aulas que abracei prontamente. Sabia que haveria algumas dificuldades, visto que o colégio que trabalharia é em Pirabeiraba, mas encarei. A tristeza (ou não!) é que duas semanas depois me oferecem 40h/a de trabalho no estado do Paraná.

As vantagens? Um salário maior, estar em minha casa, ir e voltar de carro, ter um computador e meus livros a mão, além de não ter que pagar passe, comida e aluguel. As desvantagens também são fortes. Voltar para casa e, juro, o que mais pesou para mim: largar aquela turma de estudantes do nada. Não foi um fim de semana fácil.

Optei por voltar ao Paraná.

Dar aulas onde você estudou uma boa parte da sua vida é engraçado. Eu posso até ser um professor como eles, mas relação de submissão continua a mesma dos tempos de estudante. Não sei se é coisa de ‘novato’, mas de certa forma ainda não me sinto habitante natural da sala dos professores. Mas o mais gritante é perceber como quatro anos de estudo sobre didáticos vão para o ralo em instantes.

Não há mobilização que resista a uma turma de 45 pessoas (46 se contar comigo), em salas que caberiam no máximo 35. Não há didática que dure! Não importa o que você faça, estão sempre muito próximos um do outro, quase sempre respirando nas costas do colega, e tudo o que você ouviu de todos os seus professores nos últimos tempos vira pó junto do giz. De maneira nenhuma estou fazendo um manifesto contra técnicas de ensino, ou dizendo que de nada elas prestam. Pelo contrário, apesar de obter pouquíssima resposta, essa ninharia advém justamente dessa luta. Se não fosse ela, nem mesmo isso aconteceria.

O que eu quero frisar aqui de maneira nenhuma é algo novo. É algo que povoa a fala de qualquer recém formado: um curso de licenciatura, pelo menos o que eu fiz, não prepara para o que estou enfrentando. Não prepara para um sistema educacional defasado. Isso é falha da instituição? Ainda não tenho condições de dizer.

Mas o pior, o mais revoltante, é que essa luta é instigante! Estou aqui escrevendo e olhando para uma série de livros didáticos que vou usar para preparar as minhas aulas amanhã a tarde. Isso é o ser professor?

Estréia

Amanhã começo, pela primeira vez, a dar aulas sem pressão de orientadora, relatórios e afins. A experiência é nova e assusta um pouco, ainda mais que vou iniciar no meio do bimestre com turmas já bem atrasadas no conteúdo programado. Enfim.

Carta no AN

Eu não iria publicar aqui, mas como ele sofreu um corte que afetou o seu sentido, achei melhor postar.

Carta minha que saiu no AN de 04/09, referente ao texto de Eduardo Dalbosco "Dialogar, sim!" que foi publicado no dia 03/09. Lá foi editado, aqui vai na íntegra.


O texto “Dialogar, sim!”, escrito pelo Secretário de Planejamento de Joinville, Eduardo Dalbosco é ingênuo ou mal-intencionado. Ingênuo se ele acredita que os espaços que vêm sendo aberto para discussão na cidade têm mesmo algum potencial democrático como ele mesmo afirma. Quando as vozes se levantaram contra o aumento da tarifa de ônibus, quem foi ouvido? Quem são os representantes do famoso Conselho da Cidade? Para quem não sabe, a maioria dos representantes populares foram impedidos de participar desse Conselho por questões burocráticas.

Uma gestão participativa e democrática, como ele gosta de afirmar, está muito longe de canais para dialogo com a população, lugares em que ela pode opinar quando o poder quer. Ela está apenas onde a população vive em diálogo e toma as decisões referentes ao seu cotidiano.