Síntese da desmotivação

Ontem acabei caminhando da UNIVILLE até a minha casa. Como não tenho mais uns fones de ouvido para me ajudar a passar o tempo, acabo viajando em uns pensamentos quase sempre inconvenientes. Acontece que ontem acabei pensando no às pessoas não reagirem ao que se está posto, não lutar por dias melhores ou coisa parecida.

Grande parte do que pensei ontem acabou se perdendo. Acredito que o texto seria muito melhor se tivesse sido escrito no momento em que cheguei em casa, mas acabei indo tirar umas fotos da janela, tomar iogurte. Mas lembro que toda a minha linha de raciocínio começou quando estava indo pra universidade ontem, e me deparei com o fato de que a linha de ônibus Jardim Sofia, que serve o bairro homônimo, não roda em dia de domingo. Acredito que isso não seja novidade pra ninguém, acho que nem é novidade para mim, mas pela primeira vez fiquei indignado com isso.

Perguntando para algumas pessoas, descobri que a linha Estrada da Ilha, serve aquele bairro nesse dia da semana, mas de uma maneira muito precária: as pessoas ficam longe do bairro em si. E aí me veio a seguinte pergunta: Porque[1] não há reação? Eles não têm o direito de andar pela cidade no final de semana, os jovens de lá não tem a oportunidade de ir até o centro da cidade, e não há uma reação? Preciso expressar a minha ignorância sobre a realidade do bairro, talvez exista um grupo que discute esse tema, se alguém tem conhecimento me avise, gostaria de conhecer.

Para fim de análise vamos fingir que o único problema que aquele bairro tem em sua existência é a falta do transporte público com qualidade. Muitas vezes dentro da vida acadêmica acabamos por estudar, ler e “desenvolver nosso senso crítico”, passamos então a observar as injustiças correntes ao nosso redor e nos indignarmos com elas. Durante nossos questionamentos percebemos que às vezes apenas nós, acadêmicos, que muitas vezes não sofremos com o mal que observamos, estamos tentando reagir ao que se passa. Muitas vezes temos a sensação de estar lutando a luta dos outros e pelos outros. Pelo menos eu sempre tenho essa sensação.

A partir daí inicia-se o processo de perda de interesse pela luta. Deixamo-nos influenciar pela vida cotidiana que, se não nos atentamos, rouba todo nosso tempo com as tarefas de trabalho, estudo, casa, família e uma vida social. A cada dia passamos a olhar nossos antigos objetivos como mais longínquos e nos sentir com pouca força para alcançá-los. E então temos uma nova fase de desmobilização: o mito.

Nos dias que se seguem, começamos a conhecer (superficialmente sempre, quem vai ao fundo dificilmente cai nessa armadilha) a vida dos grandes homens e mulheres da nossa história e começamos a tentar compreender, já num discurso fracassado: “o que ele tinha de melhor para conseguir tanto?”. Nada, apenas não se deixou à idéia da “luta pelos outros” tomar conta de suas atitudes e isso não exige super-poderes. Mas não é isso que enxergamos. Começamos a vê-los como heróis, como alguém extra-especial e então damos o golpe final em nosso perfil lutador.

Passamos a projetar essa idolatria a ícones do passado em ícones do presente. Começamos a ver em presidentes, governadores, prefeitos, vereadores e em lideranças de bairro, mais força e mais competência para lutar pelos nossos direitos do que em nós mesmos, e assim lhes transferimos o nosso poder de luta nos anulando frente à sociedade: perdemos toda a nossa autonomia. Desse modo, passamos a ser aqueles que sofrem e não lutam, aqueles com quem nos indignávamos no início desse texto.

Evitar esse ostracismo social não é difícil, não é tarefa para super-homem, apenas é preciso tomar cuidado para não deixar o desanimo nos abater. Há alguns dias esse sentimento tinha chegado forte em mim, mas depois da minha caminhada ontem, ele foi embora. E tudo começou com uma consulta à horários de linha de ônibus, nada mais comum.


[1] Até hoje não aprendi como é a regra do porque junto ou separado. Perdão!

3 comentários:

Cibele disse...

A professora chega pro Joãozinho:
- Joãozinho, vc fez a tarefa?
- Não fêssora
- POR QUE (pergunta em início de frase) vc não fez?
- PORQUE (resposta) a vaca pariu um bezerro e eu fui ajudar.

e agora minha incrível criatividade, tomada pelo fichamento do maravilhoso desenvolvimento econômico de nosso país me impede de fazer outro exemplo, mas o POR QUÊ, é em pergunta no final da frase.
Tipo: vc não fez. POR QUÊ?

Simples, tão simples quanto cada um fazer alguma coisa e o mundo que tanto criticamos começar a tomar forma daquilo que sonhamos.

maikon disse...

poderiamos fazer um blog chamado:
memórias de ex-presidentes.
;-)
www.vivonacidade.blogspot.com

Cibele disse...

hahaha
eu ia solidariamente comentar em TODOS.
na verdade meus tres tem né?